As origens da Tragédia: a instalação da salgema em Maceió
Todavia, na ocasião, um empresário baiano denominado Euvaldo Luz, que acompanhara as perfurações realizadas pelo CNP, solicitou ao Governo Federal, a concessão do terreno para a exploração do minério em Maceió, porém como a área requerida pelo empresário já havia sido cedida a um grupo estrangeiro por um prazo de vinte e dois anos, o pedido foi negado.
Não satisfeito, agora já na década de 1960, novamente o empresário Euvaldo Luz solicitara a autorização para pesquisar a salgema no município de Maceió e. obteve êxito através do Decreto nº 59.356, de 04 de outubro de 1966. Um ano depois, começaram os estudos geológicos na área, na qual fora estimada a presença de 99,8% de halita (nome científico do salgema), considerada de pureza excepcional, e a reserva total da jazida em torno de 3 bilhões de toneladas (LUSTOSA,1997, p.9).
O salgema extraído das cavidades subterrâneas é uma matéria-prima versátil, usada na fabricação de cloro, soda cáustica, ácido clorídrico e bicarbonato de sódio; na composição de produtos farmacêuticos; nas indústrias de papel, celulose e vidro; e em produtos de higiene, tais como sabão, detergente e pasta de dente. É empregada também no tratamento da água e nas indústrias têxtil e bélica.
Diante da grande quantidade do mineral encontrado, em 1974 fora iniciada a construção da Salgema Indústrias Químicas S/A (atual Braskem), na restinga do Pontal da Barra, região sul de Maceió, à beira-mar e próximo do encontro das águas do mar com a Lagoa Mundaú, mas as suas atividades de exploração mineral só vieram a iniciar efetivamente em 1976, quando a empresa Salgema Indústrias Químicas começou a extração de salgema para produzir cloro e soda cáustica em uma fábrica localizada no bairro do Pontal da Barra, na cidade de Maceió-AL. Na imagem abaixo pode-se observar a planta industrial da Salgema nos anos 70.
Fonte: acervo APA
Posteriormente, em 1995, a Odebrecht criara a OPP Petroquímica e adquiriu o controle da Salgema. Com a mudança de administração, no ano seguinte, em 1996, a petroquímica Salgema passa a se chamar Trikem.
A partir no ano de 2002, após a integração das empresas que faziam parte do Grupo Odebrecht (Copene, OPP, Tikem, Proppet) e outras como a Nitrocarbono e a Polialden, nasce a Braskem, que já iniciara as atividades como petroquímica líder na América Latina . Neste mesmo ano, a Braskem incorporou as operações existentes em Maceió-AL .
No entanto, de acordo com especialistas, na escolha do local para instalação da mineradora Indústria Salgema não fora levado em conta a expansão urbana da capital, o correto zoneamento industrial, o potencial turístico da região e o ecossistema lagunar.
Segundo relatos do jornalista Joaldo Cavalcante, na época, o Engenheiro Beroaldo Maia Gomes, na gestão do governo estadual de Divaldo Suruagy concedeu uma entrevista ao jornalista e deputado Mendonça Neto, na qual revelou que o local escolhido para sediar a mineradora passou por um grupo de técnicos oriundos dos Estados Unidos, os quais alegaram que o único lugar adequado e possível seria onde a Braskem foi e está instalada atualmente, pois “era lá ou nenhum outro local”, mesmo havendo indicações de outros lugares.
A este respeito, em contraposição, o professor José Geraldo Marques chegou a listar, de maneira não exaustiva, o risco ambiental direto para a cidade e para as pessoas, inclusive citando as ameaças e riscos detectados no início do processo de instalação da mineradora, a exemplo de:
(1) perigos de explosão;
(2) perigos de emanações massivas do gás cloro;
(3) inevitáveis emanações fugitivas do gás cloro;
(4) perigos de incêndios;
(5) lançamento de ácido clorídrico diretamente no mar;
(6) devastação da vegetação de restinga restante;
(7) transporte de substâncias e cargas perigosas, inclusive tóxicas, através do tecido urbano;
(8) previsão de subsidências por ação mineradora;
(9) destruição de manguezais;
(10) contaminação do lençol freático.
Ainda de acordo com relatos de Joaldo Cavalcante, antes mesmo de a Salgema começar as suas atividades, já havia registro de acidente na sua planta industrial. O referido jornalista e autor do livro “Salgema: do erro à tragédia” narra que, no dia 27 de outubro de 1977, quando a empresa começou a operar, houve o segundo acidente, notificado como “vazamento de cloro durante partida da fábrica com as duas casas de células”. Como conseqüência, quatro adultos e dez crianças compareceram ao ambulatório da Salgema, a fim de serem atendidos. Dois dias depois dessa ocorrência, registrou-se a “continuação do escapamento de cloro da casa de células”, fato também noticiado pela imprensa, segundo o autor.
Seis meses após, em abril de 1980, foi noticiada, “a explosão de cilindro de cloro transportado por caminhão em Paulo Jacinto”, município alagoano. E pelo que foi apurado e noticiado, cinquenta pessoas foram socorridas na cidade daquele município, e outras 28 pessoas receberam atendimento na antiga Unidade de Emergência de Maceió, hoje Hospital Geral do Estado (HGE)
As intercorrências envolvendo a Salgema surgiram, novamente, cinquenta dias depois, com “novos e constantes vazamentos de cloro”, seguidos de reclamações dos moradores socorridos pelo serviço médico da empresa, além de relatos sobre plantações de coqueiros afetadas na circunvizinhança da fábrica.
As intercorrências envolvendo a Salgema surgiram, novamente, cinquenta dias depois, com “novos e constantes vazamentos de cloro”, seguidos de reclamações dos moradores socorridos pelo serviço médico da empresa, além de relatos sobre plantações de coqueiros afetadas na circunvizinhança da fábrica.
O Jornal Tribuna de Alagoas, de 31 de março de 1982, noticiou uma explosão que arremessou parte da tubulação para fora da planta industrial da Salgema, a ponto de moradores da Rua Riachuelo, situada a 500m do local, terem identificado pedaço de tubo retorcido em pleno logradouro; na ocasião três funcionários da Salgema foram atendidos na antiga Unidade de Emergência Armando Lages, situada no bairro do Trapiche da Barra, conforme descreveu Cavalcante
“Após a explosão, as chamas alcançaram cerca de 115 metros. Houve muito desespero. A polícia cercou lugares estratégicos e o Corpo de Bombeiros foi chamado para debelar o fogo”
Em abril do mesmo ano, 1982, o Jornal Gazeta de Alagoas publicou mais um acidente, desta vez sobre o vazamento do gás cloro, resultado de um curto circuito na subestação que alimenta a bomba de lubrificação do compressor de cloro e a bomba d’água. Houve dez vítimas, conforme apurou o jornal. Foram também vários os relatos registrados por Joaldo Cavancante, na obra Salgema do erro à tragédia:
“Em agosto de 1984, ocorreu vazamento de cloro do sistema de compressão. Como conseqüência, quatro pessoas receberam atendimento no ambulatório da Salgema. Em janeiro do ano seguinte, constatou-se mais um vazamento de cloro na área de compressão. A Gazeta de Alagoas apurou casos de asfixia e irritação em diversas pessoas, além de outras escapando às pressas de automóveis e lanchas.“(CAVALCANTE, 2020, p. 33)
Ainda em 1982, ocorreu mais um fato polêmico envolvendo a Salgema: após o deputado Walter Figueiredo, do MDB, discursar, citando a circulação sigilosa de um documento referente à “Operação Catavento”, que trazia em um de seus itens os efeitos que o cloro ocasiona à saúde humana e que, de acordo do Cavalcante teriam sido informações sonegadas à sociedade.
“O gás cloro é primariamente um irritante respiratório. É tão intensamente irritante que baixas concentrações no ar são imediatamente detectáveis por uma pessoa normal. O documento assim descreveu a toxidez do cloro:
“agudo e irritante às membranas, às mucosas, ao sistema respiratório, à pele e agressor aos olhos.” A Operação Catavento, tratando dos malefícios do cloro sobre o homem, ainda acrescentou: “em caso extremo, a dificuldade de respiração pode aumentar ao ponto de ocorrer a morte por sufocação.” E mais adiante alerta: “A sensibilidade das pessoas ao cloro varia grandemente. De 3 a 6 PPM (Parte Por Milhão), o cloro pode causar sensação de queimaduras nos olhos, nariz garganta e às vezes dor de cabeça.” (CAVALCANTE, 2020, p. 38).
A este respeito o ecólogo José Geraldo Marques ao se reportar à Operação Catavento, afirmou: “Eu era professor do curso de Ciências do Ambiente do curso de Engenharia da Ufal. Utilizamos o teor desse documento como material didático”.
Esse documento da “Operação Catavento” trazia as seguintes recomendações em casos de acidentes com cloro:
“Ocorrendo, portanto, uma explosão em dia de jogo de futebol no Estádio Rei Pelé, a “Catavento” encontrou uma solução tão simples quanto ridícula. Basta ao locutor anunciar no serviço de microfone para todos recorrerem a um lenço, molhar e lavar às narinas, enquanto se retiram com serenidade, de preferência deslocando-se a parte alta de Maceió. É como se fosse usual aos freqüentadores de estádio andarem com lenço, bem como a existência de água em profusão para multidão, na geral e arquibancada, poder umedecer às pressas o seu paninho salvador.” (CAVALCANTE, 2020, p. 39).
Houve ainda um parecer técnico sobre os efluentes líquidos e as emissões atmosféricas elaborado pela Companhia de Tecnologia e Saneamento Ambiental de São Paulo (CETESB) e que foi interpretado por Mendes de Barros, nos relatos deixados por Cavalcante (2020), nos seguintes termos:
“Podemos claramente verificar que a nuvem produzida pela liberação de 70 toneladas de cloro, ao longo de seu trajeto, sempre na direção do vento, que é variável e predominantemente na direção Sudeste, submeterá o meio ambiente e a população a uma agressão que nos parece intolerável.”
…
“De tudo restou claro que o funcionamento do complexo industrial Salgema Indústrias Químicas S/A, instalado na restinga do Pontal da Barra, oferece perigo potencial ao meio ambiente e à população.”
Detalhes da planta industrial da Salgema em Maceió
Mesmo com a polêmica sobre o local escolhido para a sede da Salgema, desde a sua instalação, e a exposição de tantos acidentes envolvendo a empresa (casos de vazamentos, explosões, asfixia, mortes e atendimentos constantes na antiga Unidade de Emergência de Maceió, hoje Hospital Geral do Estado – HGE), surgiu o anúncio da intenção de ampliação da capacidade operacional da empresa e da instalação do Polo Cloroquímico em Marechal Deodoro e com isso surgiram, também, os movimentos sociais de resistência.